SampaArt |
![]() |
|
||
|
||||
|
Saiba Mais
Veja Também
|
Franz Krajcberg - História |
|
||
|
"Criança eu já me isolava nas florestas, não tinha nem a consciência nem o sentimento da natureza. Não sabia se eu sonhava ou se eu… Era aí o único lugar onde eu podia me questionar. Criança eu sofri muito do racismo cruel dado pela religião: estes fanáticos não admitiam outra coisa. Eu me perguntava onde eu tinha nascido, por que lá e não num país onde poderia ter sido menos detestado. Por que nasci nesta cidade onde não tenho direitos iguais aos outros. Minha mãe militava, e sempre foi encarcerada. Eu participei a tudo isso. Eu tinha paixão por minha mãe. Aos treze anos eu comecei a me interessar a politica e a ter vontade de pintar só que não tínhamos dinheiro para o papel. Isto me deixou uma marca." "Lá eu aprendi tudo sobre o "Bauhaus", sobre os grandes movimentos da arte moderna: se discutia de Cubismo, do Cézanne… das interdições nazis. Eu assisti às exposições do Bauhaus, dos expressionistas. Eu até vi as pinturas do Hitler! Visitei Nolde no seu ateliê frente ao mar. Ele também tinha sofrido por causa dos Nazis. Depois de tudo que eu vivi eu me sentia mais perto do Expressionismo do que do Concretismo. Até com Baumeister nunca senti o Concretismo, intelectual demais para mim. Mas o ensino de Baumeister era aberto, estimulante e generoso. Ele seguia o espirito do Bauhaus e nos levava à todas as técnicas. Para ajudar os estudantes, Bausmeister criou um prêmio que pagou do seu próprio bolso. Eu ganhei esse prêmio duas vezes. Ele me convidava na casa dele e me aconselhava de ir para Paris. Ele me confiou uma carta de recomendação para Léger. Léger ficou muito contente de receber notícias do seu amigo." "eu perdi toda identidade moral". "Desde que eu deixei Stuttgart, eu era um homem perdido. Moralmente eu caia não sabia mais me segurar. Odiava os homens. Fugia deles. Levei anos para entrar na casa de alguém. Eu me isolava completamente. Eu bebia, fumava muito. Mas isolado por isolado por que viver? A natureza soube me dar a força e me deu o prazer de sentir, pensar e trabalhar. Sobreviver. Eu andava na floresta e descobria um mundo desconhecido. Descobria a vida. A vida pura. ser, mudar, continuar, receber a luz, o calor, a humidade. A verdadeira vida: quando eu estou na natureza, eu penso com a verdade verdadeira, eu falo com verdade, me pergunto com verdade. Quando eu olho para ela eu sinto como tudo isso se movimenta: nasce, morre, a continuidade da vida. Eu tinha construído minha casa na floresta. Um gato selvagem tinha me adotado. Eu colecionava orchidias. Eu tive com certeza a maior coleção de orchidias do Brasil. Mas o sol era sempre vermelho e o céu nunca azul. Tinha fumaça dia e noite. Um dia me convidaram no norte do Paraná. As árvores eram como os homens calcinados durante a guerra. Não agüentei. Troquei minha casa por um bilhete de avião para o Rio de Janeiro." Eu tive muita sorte quando cheguei em Paris porque pude aí sobreviver. Tive alguns colecionadores. Aqueles que compravam de mim, sobretudo os Ingleses. Vendi à Rosa Fried para a sua galeria de Nova York todas as guaches que eu tinha feito no meu quarto de hotel. Tinha sobretudo aqueles com quem eu trocava minhas telas para comer, os restaurantes: a Coupole e na frente, o húngaro Patrick. Na Coupole eu encontrei com Sartre e Giacometti que eu admirava muito. Eu o admiro ainda sempre. É o último que tenha feito alguma coisa da figura humana: ele concentra toda a sua expressão realizando suas pequenas caras. Em Paris se falava sobretudo do Tachismo: Soulages, Hartung, o gesto. Eu assisti à morte do Tachismo. Paris estimula mas eu me sentia ai perdido. Tinha parado de pintar. Já no Rio a terebintina me intoxicava. Eu fugi para trabalhar, fui para Ibiza. Lá tive pela primeira vez a necessidade de sentir a matéria e não a pintura. Eu fiz marcas das terras e das pedras. Depois peguei diretamente a terra colando-a. Parece com uma sorte de Tachismo. Mas não é. Não é uma pintura lançada. Não há um gesto pictural. São impressões, extratos. Pedaços de natureza. Depois não pude mas trabalhar em Paris: onde achar minhas terras? Mas tarde, quando eu deixei Ibiza para Minas, trazia minhas madeiras do Brasil à Paris, isso até 1967. Mas sempre me faltava um pedaço. Depois senti isso tudo falso, trazer madeira de Minas até Paris era fazer escultura para fazer escultura, porque a sociedade tinha definido isso assim. Mas, e na realidade? É tudo o oposto de mim. Eu quero mostrar as possibilidades que oferece a natureza. A natureza precedeu o Tachismo e todas as convenções da arte. Se o homem imita a natureza sem saber porque é sua historia. A natureza existe além disso. Eu gostei da insolência e da liberdade dos Novos Realistas. Eles queriam sair da máquina formal do Abstrato sem recair no figurativo. Eles queriam se livrar dos gestos da pintura e eles ousaram o gesto de mostrar. Mostrar o que? A natureza das cidades. Os cartazes desgrudados de Hainz, as máquinas de Tinguely, as acumulações industrias de Arman, as compressões de César, estes eram a natureza das cidades. Mas dentro das cidades tem também as luzes e os movimentos. É por isso que a Op'Art me interessou. O artista não deve só ir para a natureza mas também participar á sua época. A nossa viu a terceira revolução industrial, a da eletrônica. Como conviver com a eletrônica e continuar a pintar homens? Isso foi feito. O que podemos fazer a mais? Hoje em dia, a representação humana serve a publicidade e a imagem eletrônica. Hoje, o homem na arte é o artista, portanto o que ele exprime. O artista vive na sociedade e exprime o que ele vive. O parque fez esse percurso: ele acompanhou a revolução eletrônica. Mas essa segunda natureza das cidades não é a minha. Por isso nunca procurei a entrar no grupo dos Novos Realistas que eu conhecia bem. Eu pertenço á minoria que sabe da importância da natureza no futuro dos homens, e meu trabalho o exprime. As montanhas estavam tão lindas que fiquei dançando. Elas mudam do preto ao branco por meio á todas as cores. As ondas convulsivas da vegetação crescendo nas rochas me encantavam. Eu estava deslumbrado de tanta beleza e me perguntava como fazer arte tão lindo. Nos no sentimos pobre frente a essa riqueza. Ela me angustiava e me amedrontava. Minha obra é uma grande luta amorosa com a natureza. Eu podia mostrar um fragmento desta beleza. E o fiz. Mas não posso repetir este gesto no infinito. Como conseguir fazer meu este pedaço de madeira? Como exprimir a consciência disso? Onde está a minha participação nesta vida que me inclui e me ultrapassa? Até agora eu não dominei a natureza. Aprendi a trabalhar com ela. Ela é minha cultura, não a mundana mas também nem a primitiva. Consegui minha riqueza e experiência graças a ela. Suas formas ficaram minhas. Eu faço o melhor para alargar a sensibilidade e a consciência social sem forçar muito. Eu mudei na minha obra quando precisei. Eu mudei? Não. Eu achei uma outra natureza. Cada vez que mudei de lugar, minha obra mudou, não eu: comecei a sofrer de modo diferente. Observava, queria captar a natureza sofrida. Comecei a fotografar para ver melhor, de mais perto, além do olhar. Descobri a cor, as terras de puro pigmento, as cores que são de matérias. Há centenas, ocre, cinza, marrom, verde, uma escala imensa de vermelhos. Desde 1964, todas minhas cores vêm de Minas e tenho uma grande reserva em Nova Viçosa. São terras que apanho no chão ou pedras que quebro com martelo e trituro mais ou menos finas segundo o que quero dar á matéria. Eu provavelmente chamei a atenção sobre as terras no Brasil. Os artistas têm razão de usa-las. Não há porque privar-se delas! Eu apanhava madeiras mortas nos campos mineiros e fiz as minhas primeiras esculturas dando a elas cores de terras. Queria dar-lhes uma outra vida. Era meu período ingênuo e romântico. Quando vi os (paletuviers) fiquei impressionado. "Venho do Tachismo, venho do Abstrato de Paris, e como captar o movimento deste paletuvier?" Como captar a vida destas formas, as suas variedades, suas mudanças e vibrações? "Soto conseguiu no "penetrable" que ocupava o adro do MAM (Paris 1972). Nesta vibração branca eu reencontrei a floresta amazônica. Eu tive esta idéia em Minas, mas foi em Paris que fiz as minhas primeiras sombras projetadas. Eu queria estourar o quadrado, sair do quadro. Tinha inúmeras razões para isso. A natureza ignora o quadrado: o movimento gira. A matéria se organiza em formas construtivas, isto se vê nos cristais das pedras ou nas células da pele, mas estas estruturas se movimentam: a pele sua. Nenhuma criança desenha um quadrado antes de receber uma régua: seu traço vibra. A vida não é quadrada. O mundo muda cada dia. A vida não tem formas fixas. A abstração do quadrado acompanhou as revoluções do inicio do século, como o Expressionismo acompanhou a miséria. Eu sempre tive uma sensibilidade expressionista e nunca me achei no Concretismo, nem no Brasil, nem em Baumeister. Desde Stuttgart, eu não queria a arte pela arte e o jogo vazio de declinar o quadrado dentro do quadrado não me inspirou. Eu queria achar novas forma. A natureza me oferecia milhares. Meus primeiros relevos eram demonstrativos;: reunia as madeiras naturais á plantas geométricas. Depois trabalhei as sombras projetadas. Trabalhava de noite com lâmpadas, projetando a sombra sobre um pedaço de madeira. Isto pode ser feito de dia esperando as mudanças do sol. Monet captou maravilhosamente a natureza mas como pintor. Matisse também nos seus papeis recortados. Mas no seu recorte, ele procurava o objeto não a sombra. Mas tesouras ou maquina o procedimento não é o mesmo. Eu devo mais ás madeiras recortadas de Arp do que aos papeis recortados de Matisse. E admirava muito Magritte. O seus "sapatos que viram pés descalços", é uma obra prima. A minha procura, consistia em experimentar iluminações para escolher uma sombra. Tem infinidade. Nenhum homem fez a mesma sombra e a sombra do mesmo homem sempre muda. Tem sombras complicadas, confusas. A escolha não é fácil. Eu queria unificar o objeto á sua sombra. Eu procurava reencontrar o objeto dentro de sua sombra. Eu procurava para a natureza uma possibilidade de renascer á vida da arte, juntando-se á formas diferentes nas captadas por ela. A sombra projetada dava-lhe mais uma forma. Era a minha participação. As formas empunham a cor. Talvez aquele que a deixava mais legível na luz. A monocromia reunia elementos diversos. Eu queria evitar a policromia natural, pois as madeiras eram diferentes. A policromia teria feito dela pinturas, isto eu não queria. Eu procurava saber como se transforma um objeto quando entra numa outra família. Como se unem objetos heterogêneos. Fonte: lanore.club.frConteúdos relacionados: Continuação... | Cronologia | Museus | Pinacoteca | Jardim das Esculturas | Parque Ibirapuera | Reynaldo de Aquino Fonseca | Kazuo Wakabayashi | Sérgio Telles | Antonio Dias | Roberto Magalhães | Biografia João Câmara Filho | Juarez Machado| Aleijadinho | Botero | Anita Malfatti | Camões |
||||