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São Paulo |

As obras de Ivens Machado parecem-nos declarar, igualmente, essa pulsão primordial, que escapa do domínio da pura racionalidade e se projeta diretamente sobre o imaginário.
Assim como os artistas e movimentos que se expressaram contrariamente às vanguardas "progressistas" do início do século, Ivens Machado prefere referendar-se no fazer popular. As imagens rudimentares, o acúmulo residual e aleatório das matérias na arquitetura pobre e urbana o orientam na mesma direção de uma construção de urgência. O esforço de "construção" não é o esforço do cálculo, da engenharia, menos ainda do protótipo, mas um esforço guiado pela imaginação, pelo agenciamento emergente e impulsivo das imagens.
E é dentro dessa consciência do jogo, da casualidade e da inventividade latente e pulsante que o artista resgata o lado lúdico das coisas, aí onde elas perdem o atributo do controle e ganham a magia dos instintos primários. A "arquitetura" de Ivens não é feita, porém, para abrigar vidas e corpos; ela é vida e corpo. Um corpo afinado com as formas orgânicas da natureza, com a abundância e a monumentalidade do mundo natural.
São corpos constituídos de ossos e carne, esqueleto e nervos; seres de uma fantasmática original, pois, apesar de sua imponderabilidade, aludem ao mundo da nossa experiência tátil e sensória, à nostalgia de um passado infantil ou dionisíaco, onde ainda nos deparávamos livremente -com o jogo e o prazer.
Ligia Canongia
Fragmento do texto "Ivens Machado" - 1994
fonte: Mundo da Arte
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