Artista da Semana

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A pintura de Anita Catarina Malfatti foi o estopim da vanguarda do modernismo brasileiro. Já em 1917, cinco anos antes da Semana de Arte Moderna, uma mostra com 53 de seus mais arrojados trabalhos chocaram a provinciana e acadêmica São Paulo.

Bengaladas, risos, devoluções de obras e bilhetinhos ofensivos. A causa? "Paranóia ou mistificação?", um cruel artigo de Monteiro Lobato comparava o trabalho de Anita "aos desenhos dos internos dos manicômios". Em torno dela, começa então a arregimentação de jovens poetas e artistas inconformados com a forma como estavam as coisas, culminando com a Semana de Arte Moderna de 1922 - na qual a participação de Anita volta a escandalizar.

Nascida na São Paulo de 1889, Anita era filha de pai italiano católico e mãe americana, de ascendência alemã protestante. Um defeito congênito a tornou uma falsa canhota; trazia sempre um lenço colorido cobrindo a mão direita deformada. Essa limitação foi marcante para sua personalidade e características emocionais. Criança, uma vez se deitou numa vala por onde passou um trem só para perder o medo; de olhos fechados, tudo o que vê são cores. Acontece a revelação de seu destino: quer ser pintora. Mais tarde vai experimentar voluntariamente a fome, a cegueira e a sede, buscando na sensação física a "superação do eu". Era expressionista antes de saber o que significava o termo.

Em 1912 fixa-se em Berlim, onde estuda com Lovis Corinth, artista que trabalha com valores cromáticos do impressionismo, com pinceladas vibrantes que o aproximam dos expressionistas, apesar de discordar deles. Em 1915/16 Anita está em Nova Iorque, inscrita na Art Students League, onde só mantém um interesse duradouro: aulas de gravura. É quando ela acha a escola que tanto desejava encontrar na vida, a Independent School of Art, cujo professor, Homer Boss, é um pintor-filósofo de tendência realista. Absorve de cada pintor, de cada escola - fauvismo, sincronismo ou cubismo - só as características necessárias para montar sua própria linguagem. Em 1917, de volta a São Paulo, inaugura a disputa entre arte acadêmica e arte moderna. "Não houve preocupação de glória, nem de fortuna, nem de oportunidades proveitosas. Quando viram minhas telas todas, acharam-nas feias, dantescas, e todos ficaram tristes, não eram os santinhos do colégio."

Após a exposição de 1917, vive um clima de sofrimento; até o tio que financiou seus estudos no exterior quis destruir uma das telas a bengaladas. Heroína, lutou contra todos, tendo a seu lado apenas um fiel defensor e sua paixão nem tão secreta assim: Mário de Andrade, que morreu 19 anos antes de Anita, sem nunca dar a definição amorosa que ela tanto queria. Após a Semana de 22, apresenta Tarsila do Amaral aos modernistas Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Menotti del Picchia; formam o "grupo dos cinco" e estão constantemente juntos. Em 1923, ganha o Pensionato Artístico do Estado de São Paulo e vai para Paris, onde encontraria com Tarsila e Oswald, Victor Brecheret, Paulo Prado e Di Cavalcanti. Anita vive então uma transformação profunda, perde o impulso marcante do expressionismo, deixa de lado o uso de cores violentas e artificiais e começa a representar o mundo de forma mais simples. Volta para São Paulo em 1928, reencontra os modernistas e participa das últimas manifestações do grupo.

Nos anos 30, grandes dificuldades econômicas a obrigam a dedicar-se cada vez mais ao ensino da pintura e do desenho, e à pintura decorativa. Mas é no retrato, agora sem deformações, que deixa sua contribuição mais permanente. Aproxima-se da Família Artística Paulista, participando de todas as coletivas do grupo. Os amigos cobrariam o fato de Anita não ter seguido Tarsila no movimento Pau-Brasil. Nos anos 40, Anita visita Belo Horizonte e cidades históricas mineiras. O que ela passa a expor então, são as festas, as procissões, ainda ao lado de retratos e flores, que vão ficando raros. Nos anos 50 - até sua morte, em 1964 - vive muito distante das polêmicas artísticas, recolhida em seu sítio. Segundo suas próprias palavras "Tomei a liberdade de pintar a meu modo."

A pintura de Anita parece estar em um eterno descompasso com sua cidade. A São Paulo cosmopolita irá se constranger ao observar as telas toscas, adocicadas e falsamente ingênuas que Anita passa a produzir após a primeira fase modernista. A artista que pintou obras como "O homem amarelo", "A Boba" e "Mulher de Cabelos Verdes", não quer mais ser vanguarda, nem acadêmica. Ela quer uma pintura simples, facilmente compreendida por todos e que dificilmente será aceita por seus colegas de aventura do modernismo.

Fonte: www.mac.usp.br

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