Palácio dos Campos Elíseos

A Tecnologia da Construção Civil em 1900

Os serviços de água da Cia. Cantareira foram inaugurados em 1882. A partir dessa época, as famílias mais ricas de São Paulo começaram a transferir suas residências do velho centro, servido por chafarizes, para os novos bairros, que estavam sendo abertos e logo poderiam contar com abastecimento domiciliar de água. Antonio Prado construiu sua residência em 1893. Elias Antonio Pacheco Chaves construiu sua residência entre 1890 e 1899, no bairro de Campos Elíseos, que nessa época estava em formação. Elias Chaves, como era conhecido, era figura de importância na vida econômica de São Paulo. Era cunhado do Conselheiro Antonio Prado e seu sócio na Cia Prado Chaves, empresa líder no comércio de exportação de café e em outras áreas de atividade, inclusive no setor imobiliário.

Em 1885, um velho sobrado da família, situado na Rua São Bento, foi reformado e decorado por Cláudio Rossi, cenógrafo e decorador italiano, para instalação da família de Elias Chaves. Apenas cinco anos depois, em 1890, Elias Chaves contratou o arquiteto alemão Matheus Heussler para elaboração do projeto de uma residência, no bairro de Campos Elíseos. As obras estenderam-se até 1899, quando a família se transferiu para a nova moradia.

Elias Chaves era um homem sofisticado. Viajava com freqüência à Europa, em companhia de Antonio Prado e de sua sogra D. Veridiana. Na França, acredita-se que visitou o Castelo de Écouen, nas proximidades de Paris, de gosto renascentista, construído em 1535, que foi o ponto de partida do projeto de sua nova residência. Heussler trabalhava no Brasil pelo menos desde 1882. Foi encarregado do projeto, que de acordo com as informações disponíveis, foi elaborado na Europa, provavelmente para ser ajustado ao modelo de Écouen. Ao retornar, o arquiteto trouxe consigo a maior parte dos elementos de acabamento e decoração do edifício. Os espelhos eram de cristal de Veneza, os lustres de cristal de Bacará, as maçanetas das portas e janelas de porcelana de Sèvres, os elementos de terracota colorida eram provenientes da Itália. As ferragens das portas, em bronze, vieram dos Estados Unidos. Uma parte da decoração interna foi realizada com carvalho francês e o telhado com pinho de Riga e telhas de ardósia importada. A obra foi executada pelo mestre João Grundt, nascido em Hamburgo em 1841. Grundt veio para o Brasil para trabalhar nas fundações do Viaduto do Chá, construído por Jules Martin, no Anhangabaú. Trabalhou também na construção da Escola Agrícola Luiz de Queiroz, em Piracicaba.

Sabe-se que as obras da residência estiveram paralisadas durante alguns anos e foram concluídas em 1899, sob a direção do engenheiro Hermann von Puttkamer, que havia sido autor do projeto de loteamento de Campos Elíseos. A decoração foi concluída sob a orientação de Cláudio Rossi.

A nova residência apresentava todas as características das construções mais sofisticadas da Europa, no seu tempo. Pela importância, tornou-se conhecido como Palacete Elias Chaves. Era sem dúvida representativa do que havia de mais adiantado na tecnologia da construção civil em seu tempo. O edifício tinha quatro andares: um porão, o térreo, o primeiro pavimento e o sótão, também utilizado. Suas paredes eram de alvenaria de tijolos. Havia também elementos estruturais em aço. Após o incêndio de 1967, ficaram expostas algumas vigas, na parte superior. Mas a estrutura do telhado era de madeira, incorporando a larga experiência do mestre carpinteiro João Grundt, que havia recebido sua formação profissional em um estaleiro de Hamburgo.

As obras do palacete Elias Chaves foram bem representativas dos avanços tecnológicos de sua época, em São Paulo. Incorporavam as soluções e elementos construtivos, equivalentes aos da Europa naquele tempo. Com esse estágio de desenvolvimento, já era possível aos profissionais de São Paulo incorporar os aperfeiçoamentos tecnológicos originários da Europa, praticamente nas mesmas décadas em que surgiam no outro continente.

A passagem da arquitetura de taipa de pilão, predominante em todo o período do Império, para a arquitetura de tijolos, predominante na Primeira República, não foi uma simples mudança na forma de se construir paredes. Foi a substituição de um conjunto de técnicas grosseiras, adequadas para o uso do trabalho escravo, por outras, possíveis com a presença da mão-de-obra especializada, oferecida pelos imigrantes formada a seguir pelo Liceu de Artes e Ofícios. Assim, e somente assim, se tornou possível a incorporação eficiente dos materiais importados e das técnicas mais sofisticadas.

Elias Chaves faleceu em 1907. Oito anos depois, sua família transferiu a propriedade, que estava em nome da Cia. Prado Chaves, para o Governo do Estado. A venda se fez com a mobília, com todas as alfaias e espelhos. Salvo pequenas adaptações, para atender às novas funções, a arquitetura do edifício foi mantida em sua integridade. Em 1935, no governo de Armando de Salles Oliveira, foi feita uma reforma de maior porte, adaptando-se o edifício para ser também um palácio de despachos, além de residência. A escada fronteira, com dois lances curvos, foi substituída por outra, de linhas retas, em um único lance. Pequena escada dos fundos foi também substituída por outra de maior porte e em outra posição.

A escada interna, que era uma obra de madeira sofisticada, um orgulho do mestre Grundt, foi substituída por uma nova e mais ampla de alvenaria, revestida de mármore. Foram acrescidos alguns compartimentos, de decoração em estilo "art-déco". Para acomodar esses compartimentos, foram construídos dois corpos salientes nos fundos, que romperam com a simetria das fachadas laterais. Mas a maior parte dos antigos compartimentos foi conservada com a sua decoração original, como mostram as fotografias e os detalhes dos projetos da época. Depois de 1940, o edifício atravessou uma fase de decadência, com pequenas reformas precárias, que comprometeram as suas características originais.

Em 1965, a residência oficial dos governadores foi transferida para o Morumbi e foi iniciado um trabalho de restauração, que prometia recompor o aspecto existente em 1935 mas em 1967, na fase de conclusão da restauração, o edifício sofreu um incêndio de grande proporções, que destruiu o seu telhado e uma grande parte da decoração interior. A seguir entrou em uma nova fase de restauração, quando foi estabelecido o seu aspecto atual.

Informações:

Endereço: Avenida Rio Branco, 1269 - Centro - São Paulo
Telefone: (11) 3331-0033
Preço: Grátis..

Fonte: Pesquisa e texto do Prof. Nestor Goulart Reis Filho, da Faculdade 
de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo - USP

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